Me ensina a escrever?

2013-06-19-10-26-59O nome dele poderia ser Mateus, Lucas, Cauã, não tive o senso de perguntar, envolvida que fui nesses momentos surpreendentes em que se é capturado pelo desejo do outro – desejo de aprender – e que se engancha no meu próprio desejo – desejo de ensinar. Momentos que nos mobiliza e nos retira, sem cerimônia, do nosso propósito original, apontando-nos trilhas inesperadas. Naquele dia eu estava numa classe de primeiro ano, havia poucos dias do início das aulas. Sentada na última carteira de uma das fileiras, meu objetivo era colher observações sobre um determinado aluno. Inesperadamente, o menino sentado à minha frente, este que não sei o nome, virou-se para mim com uma folha de atividades em mãos, pedindo minha ajuda para escrever igual ao parceiro do lado. Bom, eu já sei ler e escrever, vamos ver o que você pode escrever ai na sua lição. O garoto retrucou que não sabia ler nem escrever. Vejamos, o que você acha que o Cascão tá dizendo e que você tem que escrever ai no seu papel? Ele deu de ombros, dizendo que não sabia. E repetiu que queria escrever igual ao colega. Numa fração de segundos eu cruzei mentalmente dois conceitos: cópia e reflexão. Como eu poderia explicar isso para ele? Tentei novamente, explicando-lhe que o parcerinho do lado tinha escrito “bom dia” e lancei-lhe o desafio: o quê que você pode escrever diferente de “bom dia”? Não sei. Para sair um pouco desse paralisante “não sei”, um pouco de drama veio a calhar. Fiz uma careta, apontei o dedo para minha cabeça e como num mantra fui repetindo: pensa, pensa, pensa! Nessas alturas eu já tinha me distraído da tarefa original e estava em grupo com mais outros três alunos. O garoto destravou: o Cascão tá falando oi. Então, vamos escrever a palavra “oi”. Entreguei-lhe minha folha de anotações em branco e a criança se contorceu na sua carteira para escrever no papel que estava atravessado na minha frente. Pegou um lápis, sem ponta, claro. Entreguei-lhe minha caneta e lhe tasquei: a palavra “oi” começa com que letra? Ele chutou: com “a”. As outras crianças tentaram dizer a letra correta. Tinha que lidar com a turminha, esclarecendo que não era para eles dizerem o nome da letra, senão, ele não ia aprender, era pra dar dicas. Ah!, os outros alunos me olharam com jeito de que captavam a mensagem. Retomei com o menino. Se a palavra “oi” começar com “a” eu vou dizer “ai” e nós queremos dizer e escrever “oi”. Então, com que letra começa? O aluno perguntou: com “o”? É, então escreve o “o” na sua folha. Na posição transversal, ele todo retorcido porque o conhecimento requer um pouco de sofrimento físico, quem sabe? E agora, com que letra a palavra “oi” acaba?  (um desses pequenos alunos um dia me ensinou que no entendimento deles a última letra é a letra com a qual a palavra acaba). Ainda inseguro, ele perguntou: com “i”? Isso mesmo, agora escreve o “i” do lado do “o”. Muito bem, lê pra mim, apontando com o seu dedinho onde está escrito “oi”. Titubeando, passou o dedo sob as letras e leu alto. Você acabou de escrever e ler a palavra “oi”, agora é só você copiar dentro do balãozinho. E tentei voltar minha atenção para o aluno propósito da minha entrada na sala. Que nada. O garoto voltou à carga. Então “oi” se escreve com duas letras? É só isso? Impossível não me arrepiar. É como assistir um sujeito descobrindo o mundo. E mais, é participar desse processo sem me dar conta. Eu não sou professora, sabe? Mas ele achava que sim.  Quem era eu pra desdizê-lo?

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Abc da paquera

Abc da paquera 2Engatamos uma conversa sobre os melhores lugares para paquerar e arranjar a tampa da panela, já que estamos nos enta, livres e soltas. Fomos listando a partir da nossa experiência e inexperiência. O primeiro lugar foram academias de fitness. Só que não aquela de bairro, lógico, em que a mensalidade cabe no bolso. Tem de ir prum estabelecimento badalado. Se pra isso tenho que pegar o carro, tô fora. Têm os cursos de MBA. Não que eu tenha encontrado alguém por lá, mas meu ex amor decerto achou. As faculdades e universidades seriam outra opção, porém os caras acabaram de ganhar a maioridade.  Fila de cinema, com o preço proibitivo, fica difícil e tem de ir pelos lados da Paulista, porque cine de shopping só dá casal com filhos.  Também me deram dica do lago do Parque do Ibirapuera. Pode ser que quem falou tenha tido sorte, mas quando estive por lá só encontrei patos. Claro, a internet. Até tentei, mas não é pra mim. Nas duas ocasiões em que conheci os homens face a face foi um fiasco. O primeiro ficou bravo porque eu aparentava ter dez anos menos do que na foto. O segundo me deixou fula porque tinha dez anos mais do que no retrato. Têm os bailes de salão. Neles eu sou escolada, cheguei a fazer estatísticas. Oitenta por cento dos homens são casadíssimos, aqueles que vivem com duas mulheres ao mesmo tempo. Quinze por cento deles são separados – de cama – porque moram na mesma casa que a futura ex esposa. Os outros cinco por cento são de desimpedidos que não conseguem decorar meu nome, embora eu tenha falado umas três vezes.  Não dá pra amarrar o burrinho num moço que não se lembra como a gente se chama, não é? Hoje descobri um lugar insuspeito: as agências da Previdência Social. Mesmo com agendamento de um mês e meio, esperei quase duas horas para ser atendida. E enquanto esperava a senha aparecer no painel, eu fiz o que de melhor sei fazer: observar e analisar. Sim, existem boas oportunidades entre os funcionários e os usuários. Com relação aos funcionários, eu desconfio desses homens enfiados em papéis, que ficam controlando ano a ano as empresas em que trabalhamos. Parecem maridos ciumentos. No tocante aos usuários, tem-se que garimpar um pouco, porque tem de tudo. E não venha com desculpa esfarrapada de que não está em idade de aposentadoria. A Previdência tem uma porção de serviços. Vale a pena dar uma passadinha por lá. Nem que seja para atualizar os dados cadastrais. Se eu me recordar de mais locais, acrescento. Se você souber de outros, encompride a lista. No mais, boa paquera para todas nós. Continuar lendo

Vida de detetive

???????????????????????????????Fiz um levantamento das personagens dos últimos livros que li:

  • Inspetor Kurt Wallander, sueco, em torno dos quarenta, tem uma vida pessoal meio errática, vive sozinho.
  • Detetive Van Veeteren, sueco, talvez na casa dos cinquenta, um cético que mora sozinho e gosta de jogar xadrez.
  • Inspetor Erlendur Sveinsson, islandês, fala em aposentar-se e é o meu preferido. Coleciona livros sobre pessoas desaparecidas. Taciturno e solitário. Tem uma vida pessoal trágica. Ainda vou ter a manha de contar quantas frases ele fala em todo um livro.
  • Inspetor Adam Dalgliesh, inglês, uns quarenta e poucos. Poeta. Com quem me identifico. Às vezes, descobre o assassino mas não consegue prendê-lo por falta de provas materiais. Sei bem como é isso: a gente junta lé com cré mas não pode afirmar, tem que ir seguindo os sinais. É uma maldição que não nos larga.
  • Delegado Espinosa, brasileiro, quarentão, coleciona livros, gosta de literatura norte americana, de comer quibe e massa congelada, amante de vinho. Meio sozinho, sabe como é carioca, né? Consegue fazer com que eu vare a madrugada e levante mordendo quem me diz bom dia.
  • Negociador da polícia Niels Bentzon, dinamarquês, nunca saiu de Copenhagen por medo de viajar. Casado mas em dúvida. Uns quarenta. Hábil em ler reações emocionais e bom de conversa. Pergunta se o cara que tá pra acabar com tudo quer dizer uma última coisa porque ele vai ser sua última testemunha. Ai o negócio desanda pro lado do cidadão.

É uma lista grande pra ser mera coincidência. O que eu teria em comum com esse pessoal, além de mais ou menos a idade? A resposta veio do pastor Rosenberg, conversando com Bentzon. Sinai. Moisés subiu a montanha e recebeu os mandamentos. Nós ainda vivemos a vida de acordo com o que ele ouviu de Deus. A ponto de termos convertido os mandamentos em lei. Não matar. Amar o próximo. Não roubar. Na realidade, Bentzon, o seu trabalho é cuidar para que os Dez Mandamentos de Deus sejam observados.

É isso, pensei. Temos em comum nos responsabilizar pela manutenção da lei simbólica.  Foi o que tentei fazer hoje com aquele menino de nove anos que não fala, não aprendeu a ler nem escrever. E não fica dentro da classe por nada. Mas consegue acessar o Youtube nas entranhas do meu celular num piscar de olhos. Levou minha mão ao teclado para que eu digitasse a palavra mágica que abre o aplicativo. Ô André, eu não sei o que cê ta querendo de mim. Eu só entendo se você falar ou me mostrar. Ele mexeu a boca e emitiu um som aberto. Não entendi, você não fala! Então me mostra. Apontou a linha de pesquisa do Google. Ah! você quer que eu escreva? Bom, lá fomos nós … Por que é tão difícil para as pessoas demandar que uma criança fale? Que viva segundo as leis da linguagem?

Entre as cores

CintoPor falar em cores – o assunto relevante do momento – minhas consultoras de moda me aconselharam a usar uma faixa contrastante no vestido: vermelha ou roxa. Como sou de estatura pequena, a divisão em cima, em baixo lembraria, respectivamente, um filtro de água e um botijão de gás. Achei melhor usar sem nada mesmo. Mas ai, eu descobri um cinto cor de abacate. Cor suspeita. Mas não é que caiu como luva no amarelo ouro? Não dividia, dava apenas um nuance.  Mas quem usaria uma roupa amarela num sábado de inundações? Eu. Não deu outra. Experimentei pela primeira vez a dança do apito. Aquela em que os casais fazem uma roda de arrasta pé e ao som do assobio, os cavalheiros trocam de parceiras até chegar naquela inicial e sair volteando com ela pela pista. É a melhor propaganda de sua habilidade de dançar. Foi depois da brincadeira que ele me convidou pro forró. Gira daqui, gira dali, desce, sobe, o pé faz assim, mãozinha pro lado, balança o pescoço, pra lá e pra cá. Terminamos bem embaixo do palco, quando ouço o cantor anunciar ao microfone: verifique se você está com o cinto no lugar, quem perdeu pode vir buscar aqui com a gente. Subo o olhar para vê-lo segurando, com as pontas dos dedos de um lado pro outro, o meu cinto. Neste dia de calamidades eu não iria passar sem um desastre. Pedi para o parceiro fazer a gentileza de pega-lo para mim e com o que me restou de pose o recoloquei na cintura. Ah, então é seu! A voz risonha do vocalista ecoou pelo salão. Se valesse a pena passar vergonha, eu preferiria que tivesse sido com o outro músico. Mas o danado é do tipo bastidores, insinua e não sustenta. E eu pareço para raios pra atrair essa classe de sujeito.  Valham-me Iansã e Xangô!

A praça é nossa

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Eles não mereciam, eu sei. Mas uma vez que fui guerreira em vidas passadas, parece que serei guerreira pra toda eternidade. A praça na frente da minha moradia tem duas belezuras: uma mangueira e um abacateiro equivalentes a dois andares. Também funciona como parque de recreação pros cachorros da vizinhança próxima e distante. Seu limite do lado esquerdo é o Corpo de Bombeiros. A droga é que é usada como ponto de encontro dos caximbeiros, cheiradores, maconheiros,  bebuns e por uns que gostam de transar olhando as estrelas. Hoje estava esticando as minhas pernas e as do Igor quando vejo dois polícias ao fundo rendendo dois adolescentes e um marmanjo. Passei preguiçosamente por eles, recebi um boa noite do polícia e sentei-me ostensivamente no chão, virada para o grupo.Os polícias saíram dos fundos pra encostar os três no paredão do prédio, ao lado da viatura. Sai do chão e sentei no banco, de frente pra eles, conversando em voz alta com o Igor. Um deles me olhou. Eu acompanhei a revista no carro, na mochila e nas roupas dos camaradinhas. Um dos praças pegou os documentos e se enfiou na viatura, enquanto o outro colocava a mão na arma. Pra meu alívio chegaram mais três tutores com seus cachorros. Puxei conversa em bom tom com uma, que logo foi embora. O cachorro do outro, sabe-se lá porque, foi todo alegrinho pra cima dos revistados. Com um olhar do polícia, o tutor chamou o peludo. Por fim, ficamos eu e um outro, conversando fiado bem alto, os dois de olho na batida. Até que eu não aguentei. Fui vencida pelos pernilongos. Da minha janela ainda vi a viatura parada ao lado do carro revistado. Pensei que eles tinham levado de novo os moleques pro fundo da praça pra dar uns sopapos. Mas, logo em seguida, a viatura desapareceu. E eu acho que ando assistindo muito Datena e Marcelo Rezende.

Dando uma de Super Nanny

Eu desci para pegar água no bebedouro público, na parte da escola que foi cedida para a Saúde. A menininha berrava atravessada no colo da mãe. Parei. E por que você tá tão brava assim, pra ficar chorando desse jeito? A menina mudou o tom do choro. Toquei seu bracinho: vixe, você não deve tá gostando nadinha daqui. Como é seu nome? Parou de chorar e me olhou. Xi, você não sabe seu nome? Beatriz? Ela meio que ensaiou um sorriso. Não, não é Beatriz. Ana? Ela virou levemente a cabeça. Também não deve ser Ana. Perguntei à mãe, que me assistia muda, o nome da criança. Maria Vitória. Devem te chamar de Vivi! Você não sabe falar Vivi? Ela tornou a virar um tantinho da cabeça com aquele meio sorriso. Perguntei pra moça se ela falava. Não. Quantos anos? Dois. Ô, Vivi, você tem dois aninhos. Mostra assim com os dedinhos. Lutei com sua mãozinha pra conseguir fechar três dedos e mostrar dois. Seu sorriso se ampliou. Quando soltei sua mão, por reflexo, os dedos voltaram ao normal. Ela tentou mostrar os dois dedos repetindo o movimento, mas só conseguiu fechar o punho. Ah, vamos fazer um cumprimento. Você abre a mão assim, bate na minha, depois fecha – ajudei a fechar em punho – e batemos uma na outra. Fizemos a brincadeira umas três vezes com ajuda, até que ela conseguiu fazer a sequência sozinha. O que a Vivi veio fazer aqui? Fisioterapia. Por quê? Ela não anda. Não me diga, Vivi, além de tudo você é preguiçosa? Gosta de um bem bom de um colo? Ela se remexeu e a mãe sentou-a sobre suas pernas. Vivi apertou os peitos da mulher. Você já tá grande pra ficar querendo mamar, tem que aprender a falar e andar. Agora, vou pegar minha água, tá? Voltei, e a moça tinha mudado de cadeira, colocando a filha em pé no chão, entre suas pernas. Descansei a garrafa e estendi minhas mãos para a Vivi, lhe propondo que andássemos. Confiante, ela me deu as mãos e se deslocou um pouco das pernas da mãe. Bamboleou e firmei minhas mãos. Isso mesmo, dá um passo pra frente. Ela deslocou um pé. Agora muda o outro pé. Lentamente, ela arrastou o pé, e assim fui puxando-a pra frente. Agora vamos voltar pra mamãe. Dei a volta por ela. Vira pra mim. Ela balançou, esperei, e devagar ela girou o corpo. Trocando pé a pé, ela caminhou de volta. Quis desmoronar no chão. Nada disso, pode se segurar em pé. Perguntada, a mãe disse que Vivi não engatinhava e que usava fraldas. Então, deixei uma lista de coisas para menina fazer: Ó Vivi, você tem que aprender a falar, contar, andar e sair das fraldas, que você é uma moça bonita. Dá próxima vez, quero ver tudo isso. Tchau. A louca aqui foi embora. Tinha acabado o tempo da minha consulta de corredor.